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Sombra do Medo

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Ele sentiu aquele olhar atravessando suas costas durante toda a aula. Naquele dia era algo diferente, era algo mais malicioso que sempre. E o medo aumentara quando no horário do lanche não lhe levaram o dinheiro. Queria não tremer, mas suas pernas tinham adquirido o hábito. Cruzou-as de maneira pouco masculina na intenção de disfarçar o tique ansioso, escorregou a mão pelos cabelos longos mal-cortados de tesoura por sua mãe no mês retrasado.

Era o último aluno da turma, perdia até para os drogados que sentavam no fundo e falavam grosserias a aula inteira. Sua mãe lhe levara a alguns psicanalistas, psiquiatras e até mesmo em algumas pessoas especializadas em entidades metafísicas, mas, tirando a dona do centro espírita, todos lhe diagnosticaram como uma pessoa normal...

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Adornação

Eu quis te fazer um tom quiseste de mim um seu fiz, mas em dór maior, maior até que o sol.Leia Mais

O mulato

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Eu sempre ia ao mesmo bar, à mesma hora. Via mais ou menos as mesmas pessoas e sentava mais ou menos no mesmo lugar. A bebida era sempre a mesma, e acho que foi eu ter pedido uma diferente aquele dia que fez tudo acontecer. Talvez seja paranóia supersticiosa demais pensar nessas coisas, mas é o caos: tudo está ligado.

O moleque negro de sempre olhava para as mesmas pernas de sempre, da garçonete de sempre. Não sei se devo dizer garçonete porque era a dona do estabelecimento, mas como ela também servia os clientes, não cometo um erro ao lhe atribuir o ofício. Era de uns quarenta, solteira e filha de um policial reformado. E eu tenho que falar desse último e também lhe atribuir ofício porque faz parte da história...

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Sono dos justos

Não leia se não quiser confrontar seus demônios, pois o que é difícil de verdade a gente raramente sabe, mas as vezes percebe só pra notar que esteve sempre ali.
Não me considero pessimista, e nem tenho coragem de tentar ser realista, mas me admira o fato de convivermos diariamente com dificuldades sem nos dar conta da fragilidade do nosso estado de conforto.
Sendo o mais metafórico possível, e ao mesmo tempo não o sendo, vou tentar basear esse texto em uma única declaração que resume a epifania que me levou a escrevê-lo: Quanto mais despertos e conscientes estamos, mais difícil é levantar da cama de manhã.
Sabe quando vemos no jornal as notícias? Quando é novidade o aumento do número de assassinatos? Compare essa sensação com a emoção de quando um cão morre em um filme de...

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Instante

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Um dar de pestana simplérrimo, leve tremor de pálpebras que propaga pelo espaço, numa trajetória retilínea, porém caótica, acertando o alvo não como pluma que é, mas como flecha que deveria ser. E a dona dos olhos de cá, quem venho contar esse episódio, esfacela-se com o ocorrido, dá doses altas de adrenalina ao músculo cardíaco que, mais por hábito que por força, bombeia sangue às faces, corando-as.

A mão que vai ao cabelo é, também por hábito, uma resposta àquelas circunstâncias. Circunstância circuspecta, tensa, taciturna; de réplica elaborada e de olhares treinados mil vezes em outros olhares mais fracos. Olhos nos olhos, outra vez, desvio para o lado, dar de ombros leve e desinteressado. É moça nova, cheia de admiradores...

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Rabiscos

3102623100_7eedc4012d_o"Um pássaro voando é melhor que um na janela, pelo menos pro pássaro tenho certeza que é."Leia Mais

A mala

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Olhei para aquela maleta no canto do meu pequeno cômodo e não resisti às fortes lembranças que ela me revolvia. Sentei à beira da cama e chorei até soluçar. Eu começara uma pequena arrumação no meu apertamento; aquele bicho da limpeza que às vezes nos incorpora, e nos faz jogar fora coisas velhas e sem utilidade; e a cada quinquilharia uma lembrança, lembrança de uma vida que foi e não me levou junto. Outras coisas eram tão antigas que a princípio eu me recusava a jogar fora, mas o bichinho estava sempre lá e eu acabava cedendo. Eu estava sempre cedendo, já tinha algum tempo que eu não resistia a nada mesmo.

Da mesma forma eu não resisti ao choro, não resisti à mala...

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Agir Impulsivo

Ficamos mais hábeis na coisa. Fica extremamente difícil desfazer o hábito. E do hábito, o vício.

A maior desgraça da existência humana é o Agir Impulsivo.

Todo o querer, todo o desejo de mudança, o desejo de ser melhor: tudo some com uma mísera atitude impulsiva. Tenho a forte impressão que os antigos tentaram nos prevenir quanto aos dejetos de existência que levariam a tal agir e os denominaram pecados. Sei que parece obsoleta e conservadora a ideia, principalmente se levarmos em conta todos os preceitos que a acompanham; mas colocando de lado todas as entidades divinas e a culpa envolvida no processo, temos o mais autêntico guia de vivência nos escritos antigos.

É mais claro pensar em Impulso quando situamos em nosso contexto. Acordar. De manhã. Uma segunda-feira...

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Quem são eles

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O telefone tocou cedo e acordou Tomáz.

- Ô, Tom, ficou um negócio pendente de ontem, tem como ‘cê chegar mais cedo pra ajudar a gente?

O pessoal do turno da noite sempre fazia bagunça, tinha se acostumado. Levantou e vestiu seu terno rapidamente, passou no café antes de ir pro Escritório. Lá pegou a papelada e seguiu para o hospital. Foi a pé porque faz bem pra saúde, sabe como é, viver mais. Mentira. O hospital era quatro quadras além.

Quem ficou feliz foi a família do rapaz.

- Ah, foram as orações, foi milagre!

Aquele tipo de comentário arrancava um sorriso dente a dente da cara do Tom, que ficava olhando satisfeito pro serviço. O pessoal do noturno às vezes bebia, às vezes era o sono; acontece que volta e meia chegava alguma obra mal feita...

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Incompl

As coisas pela metade, um dia inacabado, umLeia Mais