Crime e castigo


“(…)de um lado uma velha estúpida, imbecil, inútil, má e doente, que não é útil a ninguém e que até, pelo contrário, a todos prejudica; que nem ela mesma sabe para que vive e que amanhã acabará por morrer fatalmente.(…) Do outro lado energias jovens, frescas, que gastam em vão, sem apoio, e isso aos milhares e em toda parte. Mil obras e boas iniciativas poderiam fazer com o dinheiro que essa velha vai deixar ao mosteiro.(…) Matá-la, tirar esse dinheiro dela, para com ele dedicar depois ao serviço de toda a humanidade e o bem geral. A mancha de um só crime não ficaria apagada com milhares de boas ações?”

Esse diálogo na taberna, escutado por nosso protagonista Raskólhnikov, pode ser tomado para representar o pensamento de Rodka durante todo o seu calvário após cometer o assassinato. É baseando-se nesse pensamento e em um artigo seu que sempre, mesmo depois de preso, julga-se inocente. Segundo ele: “(…)indivíduos extraordinários tinham direito – claro que não o direito oficial – a autorizar sua consciência a saltar por cima de certos obstáculos, e unicamente nos casos em que a execução do seu desígnio (às vezes salvador, talvez para a humanidade) assim o exigisse.”.

Podemos considerar Ródion Románovitch Raskólhnikov uma espécie de ‘anti-herói amado e virtuoso’, já que mesmo cometendo tal atrocidade e ainda por cima julgando-se inocente no sentido de sua consciência, é um grande benfeitor da sociedade, isso é mostrado quando ajuda uma mulher bêbada pela rua que ia ser estuprada, quando ouve e também dá dinheiro à família de Mamiéladov – que virá a ser um personagem marcante na obra – e o citado já no final do livro, que é quando ele salva dois garotinhos de um incêndio e de outra vez ajuda um colega com o pai paralítico, entre muitas outras pequenas boas ações.

Dostóievski deixa claro a intenção presente em cada personagem no próprio nome de cada um, Raskól, por exemplo, significa ‘cisão’, evidenciando o caráter contradiório e dividido do nosso protagonista. Razumíkhin tem em seu nome o ponderamento, e a retidão. Ele próprio, ao se apresentar, faz trocadilhos com seu nome, na primeira vez usa o termo vrazumíkhin, que em russo quer dizer ajuizado, e em outro momento usa rassúdok que quer dizer inteligencia, juízo. Tudo isso é mostrado em vários momentos, e sua poderação é consagrada no casamento com a irmã do nosso herói, Avdótia Romanovna, que era uma moça ‘de princípios e boa indole’. Ainda analisando os nomes nos deparamos com Marmieládov, uma personagem confusa, inseguro, segundo simboliza seu nome que é um cognato do português, marmielad é o mesmo que marmelada.

É esse a personagem responsável por resgatar o lado altruísta de Rodka ao longo da história, enquanto ajuda Sônia e Ekatierina, respectivamente filha e mulher de Marmieládov, é traçado o paralelo entre o bem e o mal dentro do protagonista, é a contradição presente no próprio nome, presente também no momento que sonha com sua infância, com pena do cavalo açoitado e ao mesmo tempo já acorda sobressaltado pensando em como seria matar uma pessoa. É nesse sonho que vemos claramente saltando das páginas o realismo de Dostóievski, cada chibatada no pobre pangaré é ilustrada de tal forma comover o espectador. E ainda, sua narrativa em terceira pessoa, onisciente, faz presença dentro da consciência das personagens, ilustrando seus sentimentos, seus podres e benfazejos sem nada esconder, como nada se esconde de si mesmo.

Outro ponto interessante que fica no ar é a respeito da religiosidade de Ródion Romanovitch que, como é tratado também em ‘Irmãos Karamazovi’, parece ser um ateísmo velado. Por muitas vezes o vemos falar de como fez o sinal da cruz, ou pediu a Deus alguma coisa, mas suas atitudes e pensamentos além de um trecho no sétimo capítulo da sexta parte onde lemos: “ (…) louvado seja Deus (…) Eu não acreditava em nada disso, mas ainda pouco estive abraçado à mãe (…) e pedi-lhe que rezasse por mim.” mostra o caráter confuso do protagonista. Fica claro seu ateísmo anterior, mas um medo de demonstrá-lo, por conta da cultura da época, onde esse era uma comum ofensa. No final há sua conversão aparente, sem, entertanto, arrependimento do assassínio.
Sua culpa consiste em ter se entregado, ter fraquejado, segundo sua própria teoria, de que o ‘super-homem’ teria o direito de consciência de cometer o que precisasse para um fim que ele acreditava ser o melhor, e nisso ele se martiriza, até que no final encontra no amor de uma prostituta o que precisava para se redimir.

É interessante o trecho em que desabafa com Sônia, pois nele ele fala de suas motivações e sobre o seu sofrimento, mas seu desabafo é motivado pela condição desgraçada da outra, que por ser prostituta, orfã e pobre, sofria tal como ele, e é ela quem o redime dos pecados, é ela quem mostra o caminho da dor como o caminho para a salvação da consciência, ela e Porfiri mostram, mesmo que ele não acredite nesta teoria, que a liberação de sua consciência começaria no momento que se entregasse às autoridades.

Nesse trecho também é ratificado o sentido de cisão presente em nosso anti-herói, onde ele se contradiz no que diz respeito aos motivos do assassinio e afirma que foi meramente para roubar. Apesar de esse ser um motivo, sabemos, como espectadores oniscientes da obra, que não foi o motivo ‘por completo’. Ainda na conversa com Sônia ele faz um exame de consciência, onde seu matírio está, não no crime, mas quando se depara com o fato de ele não ser nenhum Napoleão, nenhum ‘super-homem’ e por isso não tinha nenhuma liberdade para o cometido.

Nesse momento o leitor muitas vezes discorda do protagonista, pois pelo mostrado pelo autor, esse não fez mais do que o determinismo lhe indicou fazer. Isso é marcante em toda a obra aqui discutida, o realismo é evidenciado no momento em que a sucessão de acontecimentos se mostra enlaçados uns aos outros, servindo o argumento determinístico até mesmo para amenizar a alma de Rodka.

Há um realismo romanceado no tocante às relações de Raskólhnikov com sua mãe e irmã. Seus sentimentos pelas duas são exacerbados, e em tudo que faz há pensamento nas duas. O próprio crime cometido é cometido pensando nas duas, já que sua irmã estava prestes a casar por dinheiro, para ajudá-lo, segundo fica evidente na carta da sua mãe, Pulkhiéria Raskólhnikova. O caráter do noivo de Dúnia – sua irmã – é mostrado posteriormente no caso dos cem rublos, na acusação que faz a Sônia, onde erroneamente diz que esta roubou-lo, tudo isso na festa fúnebre, depois do enterro de Marmiéladov.

O livro mostra, veladamente, seus motivos sociais, onde é retratada a pobreza, a desgraça, e a doença metaforizada pelo meio em que viviam os personagens. A própria vestimenta do protagonista é uma representação de seu estado de espírito, e o único momento em que muda para uma roupa um pouco menos esfarrapada é quando sua mãe chega e dá a seu amigo Razumíkhin dinheiro para comprá-las. A Ekatierina Ivanovna, uma mulher nobre caída em desgraça é exemplo da sociedade czarista decadente da época.

Por fim, cabe citar uma das personagens mais impotantes para o desfecho da história que é o senhor Svidrigáilov, ele que com todo seu jeito mulherengo e com tendências pedófilas ainda assim termina o livro com uma imagem não tão ruim. Raskólhnikov certo momento descobre que ele tinha ouvido sua conversa com Sônia – isso de cara já deixa uma má impressão, por se tratar de baixeza ouvir a conversa alheia – mas finalmente descobrimos que se tratava apenas de uma das formas por ele encontradas de ter Dúnia em suas mãos, e o fato de ele não ter entregado o protagonista, nem ter feito nenhum tipo de assédio sexual contra a irmã deste já nos surpreende, pois ele é suspeito do assassinato da sua própria esposa – uma das questões não resolvidas da história. Apesar de ser um homem de meia idade, ele se sente atraído por meninas mais novas, e essa característica tem seu ápice no momento em que tem o pesadelo e se vê sendo atraído por uma criança de cinco ou seis anos.

O realismo dostóievskiniano nos permite essa visão profunda das personagens, sem dicotomia e sem tendenciosidades, ao ler a obra imaginamos estar por dentro de quem realmente são. O próprio discurso das personagens é, por muitas vezes, contraditório, como no momento do desabafo de Rodka com Sônia, ele nos mostra um pensamento diferente daquele do início do livro.

A própria doença de Raskólhnikov é uma metáfora para a dor sentida, não pela culpa do assassínio, mas pelo conflito filosófico em que está inserido. Este ponto pode parecer confuso mas é ratificado pelo trecho: “(…) não se envergonhava da cabeça raspada nem das correntes, o seu orgulho estava ferido e ficou doente deste orgulho ferido. (…) não via nenhum horror particular no seu passado, a não ser talvez, simplesmente, no fracasso (…)”. Ele considera um grande fracasso não ter conseguido levar suas ideias, uma das quais escreveu até um artigo, adiante. E ainda: “Por que fui um… criminoso? Que significa a sua criminalidade? A minha consciência está tranquila, É claro que houve um crime de pena capital; é claro que a letra da lei foi infringida e sangue foi derramado, pois bem… Tomem minha cabeça pela letra da lei… e basta! É claro que, nesse caso, até muitos benfeitores da humanidade, que não receberam poder por herança, mas o conquistaram, teriam merecido castigo desde os primeiros passos. Mas esses indivíduos seguiram adiante e depois tiveram razão, ao passo que eu não resisti e, potanto, não tinha direito a dar esse passo”, e por fim um resumo dos pensamentos de Ródion Romanovitch, e um novo olhar sobre o título do livro: “Era unicamente nisto que ele se reconhecia culpado: em não ter persistido e em ter ido se denunciar.”.

 

lucastamoios

 

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