A vizinha


O sol das cinco da tarde ofuscava sua visão. Era sempre aquilo pra pôr o carro na garagem, mas aquilo nunca atrapalhava, nunca sequer arranhara o carro. Exceto daquela vez. Daquela vez sua vizinha tinha abaixado pra pegar uma carta no chão. Enquanto vislumbrava o quadril da moça acabou por arranhar seu sedã novo na parede da garagem.

– Que aconteceu, amor? – a esposa correu preocupada para ajudá-lo.
– Esse sol, meu bem, vem na cara e atrapalha a gente, todo.

Ainda deu uma olhadinha naquela beleza, que agora se entretinha com um amontoado de cartas na mão. Era estranho que morasse ao lado de uma pessoa por tanto tempo e sequer a conhecesse. Sabia que a garota da casa 317 se chamava Amanda, tinha vinte e três e passava a noite inteira fazendo sexo selvagem com algum de seus namorados ao som de alguma banda barulhenta.

Parou do lado do estrago e lamentou pelo carro recém comprado. Sua esposa lá de dentro recitava os mil e um acontecimentos do dia, de como alguém tinha revirado o lixo na porta de casa, de fulana que tinha encontrado um salão de beleza que era uma maravilha e de seu filho que tinha tomado recuperação em física.

– O André de recuperação em física?
– Isso se não pegar final, Chico.

O que mais frustrava é que Francisco Sincero Junior era professor do curso de engenharia civil, e queria que o filho seguisse pelos mesmos passos. Deixou a chave do carro na mesa e subiu para o quarto do filho.

Nem bateu. Chegou entrando silenciosamente e viu que o filho estava espreitando alguma coisa na janela. Ele chegou do lado dele e viu que a vizinha trocava de roupa com a janela aberta.

-Você não tem vergonha não? Ficar espiando os outros assim? – o garoto tomou um susto e quase caiu lá embaixo – Fiquei sabendo das suas notas, desce lá pra estudar. Vai tomar aulas comigo agora.

Fechou a janela energicamente enquanto o filho saia meio cabisbaixo para os estudos. Esperou que ele saísse e voltou-se rapidamente para a janela. Ah, ela era linda, que curvas! Sua falta de pressa para se vestir tornava tudo muito mais sensual, quase comia aquelas pernas enormes com os olhos. Ah, e no meio delas… Via tudo e já se imaginava lá, dentro dela, ao som de alguma banda desconhecida, em algum tipo punk de sexo.

– Amor, sabe que a gente quase não conhece essa vizinhança? – falou sua esposa enquanto lavava os pratos. Ele enxugava, e parou de repente ao ouvir isso – Essa nossa vizinha mesmo, é meio esquisita, mas parece ser boa gente. E o senhor da casa 320, aqui na frente! Parece ser um doce de pessoa, e nem nunca trocamos uma palavra sequer. Esses dias vi que ele varria as folhas da nossa calçada, mas quando ia descer pra agradecer ele já tinha entrado.
– E o que você pensa em fazer?
– Talvez convidá-los para o churrasco da família na semana que vem…

Se voltar do trabalho já era um saco por causa do trânsito, quando tinha que comprar alguma coisa para sua mulher era ainda pior. Ainda mais que o churrasco seria só dali a sete dias. Para que tanta antecedência? E quanto supérfluo…

Quando chegou ao caixa percebeu que a atendente era familiar, sua vizinha pra ser mais exato.

– Como vai, seu Junior? – já disse ela com um sorriso imenso e arrebatador – Vai ter festona, hein!?
– E segundo minha mulher você está convidada – falou como se não ouvisse suas próprias palavras – Ela quer que convide a vizinhança.
– Mas o senhor faz questão que eu vá? – Ela olhou nos olhos e aquilo despertou toda a libido contida nas calças daquele homem de quarenta e um anos.
– Não me chame de senhor… Até faço questão que vá – Já ia terminando de passar as compras – ela quer que chame também o senhor que mora em frente.
– O seu Irineu é um amor de pessoa! Já o conheço. Tá marcado então, que dia vai ser?
– Segunda feira à partir das 8 da noite…

Chegou em casa já cansado e jogando as coisas no chão. Sua mulher trouxe uma cerveja depois que tomara banho e estava sentado vendo o noticiário. O André tinha ido dormir na casa de um amigo. Aproveitou a noite sozinho com a esposa e transaram até de madrugada, de todas as formas possíveis. Aquela mulher era incrível.

No outro dia de manhã ele acordou com carinhos e um café na cama. Oh, aquilo era demais! Pensou ele.

E foi tranqüilo para o trabalho. E assim sucedeu a semana. Todos os dias agora, parava pra conversar com Amanda antes de entrar, e descobriu o horário que tomava banho, ela não tinha a menor preocupação em estar sendo observada – às vezes Francisco até acreditava que ela queria isso. E ele não se importava.

Enfim, chegou o dia do churrasco, e nele compareceu muita gente da qual não gostava, como seu cunhado por exemplo, mas também muitas pessoas que apreciava. Achou incrível conhecer o velho Irineu, escritor e aposentado, tinha as ideias no lugar e era muito culto. Outra família que morava mais acima da rua também tinha sido convidada e estavam todos presentes. As crianças eram adoráveis, e tinha até uma menina de uns quinze que pegou de conversa com o André…

Sua vizinha estava excepcional. Vestidinho vermelho e curto. Clássico. Era uma caçadora. Sentou-se do seu lado na hora do jantar, sua esposa estava do outro. Enquanto seu cunhado fazia alguma piada de péssimo gosto do outro lado da mesa, os dois iam conversando e eis que Chico sente uma mão no meio das suas pernas. Por um momento pensou até ser sua esposa em seus momentos fogosos, mas quando viu o sorriso de Amanda, ah… Sentiu até um calafrio. Ela Pôs o copo de vinho nos lábios e foi bebendo lentamente. Ela devia saber o quanto aquilo era sexy.

Ele sorriu pra ela e se levantou. Caminhou para o portão e esperou. Alguns minutos e ela estava lá, do lado dele.

– Eu não quero dormir sozinha esta noite.
– E eu precisaria de alguma desculpa muito boa pra poder te ajudar.
– Vou fingir não estar passando bem, diga que vai me levar ao hospital…

E assim foi. Ela fingiu algumas tonturas, disse que tinha comido algo que não a fizera bem. Francisco, sempre servil, se prontificou a levá-la para um hospital. E dali foram para não mais longe que a casa dela. Óbvio que os leitores atentos se perguntam nesse momento o que fizeram com o carro para que parecesse que tinham realmente ido para o hospital. Mas eles tinham deixado o carro em uma rua transversal, e enquanto perdiam algum tempo, davam uns beijos e amassos na rua mesmo.

Passado um tempo foram os dois para a casa dela, e lá dentro ela já foi tirando a roupa. Sensual que só, peça por peça, lentamente, e aquele atrito entre os corpos dos dois. Ofegantes, olhando um nos olhos do outro. Ele arrepiava quando a língua dela passavam em seu peito.

Ainda de calça ele levanta-se subitamente. Ela olha meio sem entender, mas no fundo mesmo compreende o que acontecia, faz uma cara de garotinha mimada e dá alguns beijos em suas costas para tentar reverter a situação. A música ainda toca na casa ao lado. Ele veste a camisa.

Já em casa beija a esposa e diz que está tudo bem com a vizinha, que a deixara em casa mesmo. “Deve ter bebido um pouquinho demais, heheheh”.

– A festa foi maravilhosa, só faltou você aqui quando todo mundo foi embora – disse enquanto arrumavam a bagunça deixada pelos convidados – mas você… sempre tão prestativo – e riu-se.

Subiram para o quarto e terminaram a festa eles mesmos, como bem imaginam todos que estão lendo esta história.

 

lucastamoios

 

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