Capitães da Areia


‘Capitães da Areia’ é publicado por Jorge Amado após sua prisão, em 1936. É permeado por motivos sociais e políticos, que se mostram presentes durante todo o desenrolar da história sobre meninos pobres da Bahia. Além do forte teor político, o livro é marcado pelo sincretismo religioso e por conflitos internos sentidos pelos garotos.

Em muitos momentos é possível perceber uma tentativa de generalizar o tratamento dado à cidade em que residiam: “(…)andar assim, ao azar, nas ruas da Bahia”, pois é uma forma de se identificar com a situação geral baiana vivida em meados de 1910.

O sentimento comunista, que acompanha o líder dos Capitães, pode ser explicado como sendo um sentimento do próprio autor em relação à política. Jorge era abertamente comunista e deixa explícita sua intenção social do livro principalmente na personagem de João de Adão, que vem a ser uma espécie de mentor para o menino Pedro Bala, o líder.

Além deles dois, há várias personagens temáticas, como Pirulito, que expressa o conflito religioso através de uma adoração às coisas divinas e um temor/amor a deus, paralelos a uma vida de crimes e pecados. Essa personagem marca uma ilha do barroco no mar modernista que é a obra, já que o restante deles, como Volta Seca, Sem-Pernas, João Grande exalam seus tipos sociais, uma das principais características da segunda fase do modernismo.

A sexualidade prematura é mostrada em Gato e sua amante Dalva, um garoto com a sexualidade de um homem que conquista uma prostituta, ou em cenas que mostram os meninos ‘derrubando’ as negrinhas no areal. No capítulo das Docas acontece um estupro, onde o estuprador, Pedro Bala, sequer vê aquilo realmente como um crime até o momento em que a negrinha o amaldiçoa: “Ela o olhou novamente com ódio e deitou a correr. Mas na esquina mais próxima parou, virou para ele (que ainda olhava) e rogou praga com uma voz que o encheu de medo (…). Primeiro ele ficou parado depois deitou a correr no areal e ia como se os ventos o açoitassem (…) e tinha vontade de se jogar no mar pra lavar toda aquela inquietação (…)”. Ele percebe o mal que tinha feito e então sente a tristeza, e culpa os homens que tinham matado seu pai por tudo aquilo, culpa a sociedade.

Essa sexualidade também pode ser vista quando uns meninos se ‘deitam’ com os outros pelos cantos do trapiche, pratica muito comum, mas que foi proibida por Pedro Bala, depois de convencidos pelo padre e por Querido-de-Deus que aquela era uma prática “indigna de homem”. Isso é retratado no capítulo “Deus sorri como um negrinho” e mostra a que ponto a inocência dessas crianças ainda vai, por mais sofrida que seja a vivência deles.

Uma outra criança abandonada é o Professor, que com suas histórias encabula e cativa todas as outras crianças, que em sua carência, vêem nesses contos seus sonhos de heroísmo revelados, e até sentem-se como grandes heróis muitas vezes.

No capítulo “Manhã como um quadro”, é quase possível ver a cidade pintada pelos olhos de Professor, é possível perceber quase todos os momentos de sua presença como uma pintura, e é ele que no futuro falará pelos garotos pobres, sempre representando a tristeza das ruas da Bahia em seus quadros, com a menina dos cabelos loiros e o homem de sobretudo, o qual é a personificação da burguesia na visão artística desse garoto, que foi humilhado por um homem e depois rouba seu sobretudo, que considera ser seu troféu.

O garoto Sem-Pernas, assim chamado por ser coxo, comove todos com sua história de abandono, sempre conseguindo passar uma noite na casa e depois dando a dica de onde as coisas deveriam ser roubadas. Ele é o centro do conflito interno de um menor abandonado, no livro. Sua tristeza e ódio vão aumentando conforme passa por cada família e vai se sentindo humilhado, menosprezado por aquele grão de carinho e atenção que recebe: “(…)levavam objetos valiosos e no trapiche o Sem-Pernas gozava invadido por uma grande alegria, alegria da vingança. Porque naquelas casas, se o acolhiam, se lhe davam comida e dormida, era como cumprindo uma obrigação fastidiosa. Os donos da casa evitavam se aproximar dele, e o deixavam na sua sujeira, nunca tinham uma palavra boa para ele.” E tomado por esse sentimento e pelo ódio que sentia pelos policiais, que se suicida durante uma fuga no final do livro. Ele aceitaria tudo, menos ser pego.

Há uma personagem que entra no meio da história e que não deixa de ser uma das mais importantes, a Dora. Garota que perde a família depois da epidemia de varíola e com seu irmão acaba por se unir aos Capitães da Areia. Nesse momento ocorre a transfiguração de Dora em mãe de cada um do trapiche, e noiva de Pedro Bala que, poderia se dizer, era como o pai de todos aqueles meninos. Ela participa dos roubos e inclusive da briga com um grupo rival, onde é comparada a Rosa Palmeirão, outra personagem de Jorge Amado.

Os pais de Dora morreram de varíola, também chamada de bexiga no livro. A epidemia é vista como uma peste que a deusa Omolu mandou para pegar os ricos e acabou pegando nos pobres, que eram os que não tinham vacina, e é essa a explicação popular para a diminuição da força da doença, que é a pena que Omolu sente dos menos afortunados. No capítulo ‘Alastrim’ é como se o próprio Jorge Amado falasse pelo narrador, expondo toda sua religiosidade, pois sabe-se que ele era simpatizante do candomblé. Apesar disso a religião católica também é presente, e muitos personagens até misturam as duas. O trecho: “O Querido-de-Deus, que era um pescador valente e um capoeirista sem igual, também acreditava neles [deuses africanos], misturava-os com os santos dos brancos que tinham vindo da Europa.” É exemplo desse sincretismo religioso.

Ainda aqui o leitor atento se pergunta sobre o irmão menor de Dora, o Zé fuinha, o que teria acontecido com ele? O ultimo momento em que ele é lembrado é depois de entrarem no trapiche. Fica aqui a dúvida se o desaparecimento desse personagem tem algum significado, se seria apenas um descuido de Jorge Amado com suas personagens secundárias, ou se simplesmente não havia mais interesse em retratá-lo.

Apesar de tudo o que passam, os meninos dão real valor a liberdade que tem. Por mais que sequer saibam o que, ou se, terão para comer, isso dá um sentido diferente para a vida de cada um. Alguns até preferem aquela vida a uma ao lado de um pai ou mãe maldosos. O sofrimento e até mesmo os crimes, muitas vezes tentam ser justificados pelo livro. Em certo momento de reflexão de Pirulito: “Eles furtavam, brigavam nas ruas, xingavam nomes, derrubavam negrinhas no areal, por vezes feriam com navalhas ou punhal homens e policiais. Mas, no entanto, eram bons, uns eram amigos dos outros. Se faziam tudo aquilo é porque não tinham casa, nem pai, nem mãe, a vida deles era uma vida sem ter comida certa e dormindo num casarão quase sem teto. Se não fizessem tudo aquilo morreriam de fome.”, ou do Padre José Pedro: “(…) crianças extraviadas… Será que elas tinham culpa? (…) São uns meninos… que sabem eles do bem e do mal? Se ninguém nunca lhes ensinou nada?” remetem um certo determinismo por conta do autor, que, principalmente nesse discurso do padre, está aliado ao comunismo de Jorge Amado, à crítica social arraigada na obra. Critica social que também está presente quando o autor cita o reformatório e o orfanato, bem como as instituições sanitárias que cuidam da varíola.

Com toda a história sendo tratada de forma tão realista, fica difícil dizer que houve um “final feliz”, entretanto é possível afirmar que a maioria dos garotos teve um destino bom se comparado com o resto dos meninos que vivem a mesma realidade. O capítulo “vocações” trata essa parte, como o nome mesmo já diz. E já no meio do livro é possível perceber que esse realmente seria o final de cada um, mostrando mais uma vez um cenário fatalista e determinístico.

 

lucastamoios

 

2 thoughts on “Capitães da Areia

    1. Essa é uma análise literária, não política ou social. Concordo com você sob certos aspectos, mas não seria honesto da minha parte escrever uma análise literária tão carregada de opiniões.

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