Olhos penetrantes

Eu almoço. Feijão tropeiro, carne assada, batata frita, peixe. Um som de pneu cantando me chama a atenção pra fora do recinto, mas o que eu realmente olho é um cidadão sentado na calçada, se abrigando do sol atrás de um poste; bem… Chamar o sujeito de cidadão é uma bela de uma ironia, já que ele é desses que menos se favorece dos benefícios da pólis.

O cheiro é estonteantemente bom e ressuscita até meu apetite – tomei o desjejum a menos de duas horas – imagina o apetite daquele. Mas sua expressão não pede pena ou compaixão, seu olhar penetrante; treinado nas ruas para intimidar, para ferir os olhos burgueses que tentassem violar os domínios de seu ascetismo involuntário; se volta para mim. Recuso-me a desviar o olhar, questão de honra! Ele parece pensar o mesmo, pois o fixa de vez.

Desvio e olho para o prato. Vitória dele. Pequena vitória que faz um perdedor. Nesse momento, enquanto escrevo, entra uma barata no meu quarto, e não deixo de compará-la ao sujeito: a condição suja, sua posição vulnerável na cadeia existencial, um verdadeiro dalit ocidental. Mas ambos, o sujeito e a barata, ambos intimidam. A barata nos remete à doença, o outro, ao delito.

Nos meus devaneios, ele entrava e assaltava-nos, vingava sua posição nesse gesto de superioridade momentânea; quebraria a inércia social da esmola. Mas não o fez, por mais que se passassem os minutos, e meu prato fosse se esvaziando, passava o tempo e o sujeito não entrava, não pedia, não falava nada; apenas nos fitava.

Um cidadão – esse sim grande beneficiário da urbe – se dispõe a pagar uma refeição ao individuo da calçada. Ele faz uma mesura e aceita. Pega do mais simples prato e senta lá fora, recolhido à sua humilde posição, que carrega não como um fardo, mas como uma lei. Agora seu olhar não mais pulula pelo restaurante, ele fixa-o no prato. Dessa vez o intimidado é um pedaço de peixe à milanesa.

 

lucastamoios

 

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