Zona de conforto

Ao visitar uma prima distante, certa vez, esbarrei-me num daqueles acontecimentos nostálgicos que a vida nos joga na cara para que não esqueçamos quem somos.

Devia ser janeiro, não me lembro; sei que era um período de férias. Bem… Férias pelo menos para o pequeno, que vinha entretido numa brincadeira embaixo de uns cobertores na sala, perto de onde eu e a prima conversávamos. Depois de certo tempo, e uma quantidade incontável de ‘cala a boca, menino’, minha prima vai atender ao telefone, me pedindo mil desculpas, mas aquela era uma chamada importante.

Eu disse que não me importava e, com a saída da mulher, aproveitei para reparar no garoto, que erguia verdadeiros muros de lã e estofado ao seu redor. Era sua fortaleza, se encolhia lá dentro e ficava por algum tempo, conversando sozinho. A princípio achei algo um tanto quanto idiota, mas só até me lembrar de que fizera o mesmo nos tempos de garoto. Um pouco envergonhado de tê-lo repreendido, mesmo que mentalmente, me recordo do quanto eu me sentia confortável, lá dentro… Ah, bons tempos.

Eu é que fiquei meio tolo, ignorante, de não ter percebido na hora que eu também fazia aquilo todos os dias, eu também tinha minha zona de conforto; a diferença é que ela não tinha um cobertor de teto, ou sofás e cadeiras de muros, muito menos uma lanterna que me iluminasse. Minha cabana de cobertores cresceu comigo, e se metamorfoseou. Ao invés de muros tinha braços, no lugar de teto era um sorriso, e minha lanterna agora não passava de um olhar carinhoso. É… Acho que a criança é quem me acharia um tolo.

 

lucastamoios

 

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