Herói

O revólver no coldre pesava tanto quanto a responsabilidade que agora tinha em mãos. Não era uma responsabilidade que lhe faria um herói, até pelo contrário; mas fora aquilo que almejara. Recebera a ordem direta do grande chefe do tráfico, ordem que lhe subira muitos degraus da escada hierárquica, despertando muita inveja nos colegas. Mas Marcão não tinha medo, tinha sim um “treis-oitão”.

Era um dos asseclas mais diretos do grande Pé-de-Coelho. O homem tinha o corpo fechado, mas mesmo assim fazia questão de ter os melhores da equipe como guarda-costas. Marcão ficara encarregado da mulher do chefe. Encarregado assim… Nem via a senhora, mas não podia deixar ninguém entrar ou sair da grande mansão sem que o ‘Pé’ soubesse.

Marcos Renildson Silva tinha nascido e morado na favela, tinha crescido invejando crianças bem nascidas, e agora morava numa mansão; num quarto de criados, é verdade; mas mesmo assim numa mansão. E cumpria com rigor suas tarefas, não queria decepcionar o patrão. Decorara a ordem em que entravam os carros na casa, as placas de todos os carros, e todos os horários daquela rotina insana; além de inspecionar toda a residência três vezes ao dia.

Pé-de-Coelho gostava do serviço de Marcão; ia na mansão duas vezes por semana encontrar-se com sua mulher. Marcão achava estranho nunca ter visto a fulana, mesmo já tendo alguns meses de trabalho na casa.
Outra vez a visita de Pé-de-Coelho se deu depois de um tiroteio com a polícia, e Marcão viu seu chefe chegar todo estrupiado em casa, numa motinha velha, baleado na perna e esfolado na cara. O Capanga ficou com dó do coitado. Deu mais uma olhada no homem que subia a escada pra ver a amada novamente, ‘dó o escambau, ele tem dinheiro e a porra de uma mulher que gosta dele’.

Mas a polícia foi quem ficou mais estupefata com a habilidade daquele bandido de não morrer. O danado tinha sido pego em um beco, com uma arma na mão; quando se acabaram os tiros do sujeito eles investiram com tudo, pra matar mesmo. Mas o danado tinha sorte, ô se tinha… Ficou naquela mesmo, tudo que é jornal falava do homem-do-corpo-fechado, e Marcão tinha orgulho de trabalhar para aquele sujeito.

E, como eu ia dizendo, ele chegou estrupiado e foi ver a senhora, subiu os degraus e deixou Marcos naquela sonhação de quando fosse chefe do crime, homem rico e poderoso. Divagou que nem voltou pro seu posto, e ficou dentro de casa mesmo, acordou e ficou ressabiado, ‘Se o chefe pega eu tô lascado… Deixa eu sumir daqui!’.

Mas não deu tempo de ele ir porta a fora antes de ouvir os gritos. Ele nunca tinha ouvido porque a casa isolava muito bem os sons e ele ficava muito longe dali, mas os gritos eram urros altíssimos, de dor… De sofrimento. Preocupado com a situação, sem saber o que fazia, Marcão começou a imaginar que alguma coisa errado tivesse se passando lá em cima. Cabra macho que era, mas sem muito pensamento na cabeça, subiu sem pensar as escadas. Que quer que fosse, alguma coisa estava errada.

Subiu e deu de cara com uma cena estranha: a porta estava aberta, um homem espancava uma mulher que jazia deitada numa poça de sangue, agora ela só gemia. O homem a chutava sem dó, como se chuta um saco de aniagem pra ajeitar no monte, em cima de outro saco. Pois é, Marcão pega aquela cena e nem se dá conta que o sujeito agressor era o próprio chefe, saca o revólver e mete dois tiros na cabeça do Homem-do-Corpo-Fechado. Ele cai morto no chão.

Boquiaberto com o que acabara de fazer, Marcão chega perto dos dois, a mulher era uma mulata linda, apesar dos ferimentos ainda mantinha a beleza, o chefe tinha só metade da cabeça; ele olha de novo pra mulher e vê ela balbuciando: ‘Meu herói’. Ele abaixa perto dela e ela ainda tem forças pra levantar e dar um abraço nele, que fica empapado de sangue. ‘Meu herói’ ela fala de novo antes do resto dos homens do Pé-de-Coelho chegarem no local.

 

lucastamoios

 

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