A Velha e a Manifestação

Era um sábado de manhã e eu estava perdido em meio a uma multidão de manifestantes. Não que realmente estivesse perdido, mas porque eram muitos. Eu também gritava e conclamava como todos que estavam ali, sedentos por mudanças e sonhadores com uma nova configuração do sistema.

É num desses momentos que todas as nossas esperanças se renovam, a possibilidade de mudança; o contagiante brilho nos olhos alheios; os gritos inflamados de fé… Mas não foi por isso que comecei a escrever, na verdade, naquele dia um fato curioso aconteceu; é estranho que isso tenha me voltado a memória logo agora, depois de tanto tempo; naquele dia eu sequer dera tanta importância ao assunto.

Seguíamos todos por uma das principais ruas da cidade, cantando hinos e girando o punho no ar, quando vi uma senhora que não aparentava menos de setenta anos acompanhando a turba. Agora vejo que naquele momento eu realmente me assustei, mais pela situação caquética da jovem anciã que por qualquer outra coisa. Ela se apoiava numa bengala e dava seus curtos passos com dificuldade, enquanto a outra mão girava no ar tal como faziam todos os outros.

De um momento para o outro meus olhos se encheram de lágrimas e ardeu em meu peito um sentimento mais forte do que nunca. Seria a situação atual tão intolerável que até mesmo uma senhora de idade poderia se revoltar? Ou ela apenas sentia como nós aquela mudança nos ventos e precisava participar da história? Provavelmente, se não estivesse ali, estaria cozinhando para seus netinhos e pensando no que bordaria à tarde – já era quase hora de almoço; mas ela tinha saído do marasmo, rompido todos os limites de qualquer zona senil de conforto.

O movimento seguiu e parou diversas vezes, e eu quase não dei por fé daquela senhora outras vezes. Era muita gente que ia e vinha, que gritava. Às vezes delineava a frágil figura em meio a multidão, sempre amparada por diversos braços de pessoas que, assim como eu, admiravam a atitude. Como se não bastasse o barulho e a agitação, foi uma longa caminhada e o calor estava infernal; mas para minha surpresa, ao terminar a jornada, ela ainda estava ali.

Alguns subiram num palanque improvisado para discursar, todos tinham espaço na tribuna e eu fiquei meio que dando suporte por ali, vez ou outra pegava no microfone, mas era apenas para passá-lo adiante. Foi enquanto tocava o hino nacional que a vi pela penúltima vez, com a mão no peito e os olhos fechados, e me subiu pela segunda vez no dia – e pelo mesmo motivo da primeira – aquele calor pelo corpo, aquele emocionar contido. Ela cantou com amor, todo o hino; enquanto eu apenas balbuciei e errei pelo menos três vezes. No “…patria amada, Brasil”, quando todos bateram palmas, ela, aparentemente como entendedora dos acontecimentos cívicos, continuou com a mão no peito até a musica se acabar; depois disso a multidão começou a se dispersar.

Foi então que não me contive e fui ter com a mulher, queria ao menos saber o nome dela, seus motivos. Eu me aprocheguei sem falar nada, ela conversava com outra senhora que esperava o ônibus. Meio que sem querer eu ouvi a conversa das duas:

-…mas foi bem bonito o que esses meninos fizeram, viu!? – Falou a velha revolucionária.
-É mesmo, menina, é bonito ver essa moçada interessada pela nossa cidade, né… – a outra deu um tempo, olhavam as duas para o lugar onde os cartazes eram agora ajuntados – …mas por que é que fizeram isso mesmo?
-Eu não sei não… Eu tava saindo da consulta e dei com essa movimentação toda… acabou que a gente vinha pro mesmo lugar, eu vim vindo e uns meninos que me pediram pra gritar junto com eles.
-Ah… E tava consultando de que?
-É alergia, menina, cê acredita que outro dia, enquanto eu tava comendo peixe…

 

lucastamoios

 

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