A Força do Silêncio – Uma análise superficial

Pra que tanta inteligência?
Pra que tanta emoção?
Qualquer coisa em excesso faz sucesso meu irmão

Já é clichê falar do quanto somos bombardeados de informação todos os dias, mas é a verdade. E pior é que a maioria é informação inútil, sem sentido, sem contexto. Hoje me peguei a pensar na música ‘A força do Silêncio’ da banda Pouca Vogal e, apesar de já haver um blogue destinado à explicações das músicas do Humberto Gessinger – O Blogessinguer, escrito pelo próprio -, resolvi destrinchar essa música que muito me inspira e instiga.

Não sou muito afeito à explicações lógicas de poesias, músicas e outros tipos de arte, que acredito serem fruto da transa da emoção e da imaginação; mas nesse caso não pude me conter, já que os indícios de combinações lógicas propositais colocaram minha mente em polvorosa. Dias antes discutia com minha namorada a respeito das intenções do autor já nessas primeiras linhas. Qual o contexto discutido? Seria o cenário comum já adotado por muitos autores modernos, o da internet? Seria apenas mais uma música sobre a realidade cotidiana? Talvez fosse a mídia como um todo… É, a mídia tem sido autora de excesso; ou se não autora, pelo menos complacente.

Quanta gente com certeza
Tanta gente sem noção
Em excesso até o fracasso faz sucesso por aí

O tema teima em sua abrangência, e o primeiro verso do que acima está escrito faz um contraponto a outro verso de uma outra música do mesmo autor: “A dúvida é o preço da pureza” (Sim, eu sei que é uma frase de Sartre, mas mesmo assim ainda está numa música do Humberto). É incrível a quantidade de pessoas que se passam por especialistas em determinados assuntos. No já referido blogue do também já referido autor da música, encontrei esses dias um texto onde ele falava sobre ‘especialistas de vinte minutos’, pessoas que após ouvirem uma ou duas vezes sobre um tema, acabavam por se tornar doutas no assunto. A certeza, o absolutismo intrometido da voz que grita ‘Você está errado!’, a falta de bom senso em aceitar a dúvida como mãe da sabedoria – ou da pureza -, são assustadores. A resposta a tudo isso vem em uma frase apenas:

E eu tenho fé na força do silêncio.

Sim. Uma única e singela frase que deixa ecoar todos os instrumentos por trás sem mais nada dizer, sem barulho, uma metalinguagem paradoxal, uma linguagem que explica a própria linguagem… Mas sem linguagem! Sim! é no momento que acaba a frase, que o vazio da voz e os instrumentos tomam conta da música que ela passa a fazer sentido, que a frase passa a fazer sentido. A fé. O silêncio. Dois inabaláveis alicerces da mente humana, mas que, apesar de inabaláveis, moribundeiam no jazigo aberto pelos meios de comunicação em massa. Juntos numa expressão que contrapõe os conceitos budistas antagônicos de Ego e de Silêncio/Vacuidade. Expressão essa que posso, apesar de já escrito tanto, resumir em apenas uma palavra: Inspiradora.

Outra coisa paradoxal é o meio que uso para definir a poesia agora analisada. Literalmente é como usar palavras para descrever o silêncio. Peço então desculpa às mentes que já entendem o que a melodia tem a oferecer, e desculpas também àqueles que julgam errônea minha dissertação. Então talvez eu escreva para o vácuo ou para mim mesmo. Voltemos agora à letra:

Se as cores vão berrando no sol ensurdecedor
Fecho os olhos… Outro mundo
Vou morar no interior

Essa parte, também fala dos excessos, mas de uma maneira intrigante. As tais cores berrantes fazem uma alusão a que? A música foi composta em meados de 2006 ou 2007 (não consegui encontrar a data exata), entretanto parece contextualizar com o momento musical de 2008 em diante, momento em que diversas bandas coloridas tomam conta do cenário nacional e “berram com suas cores” num sol/som que ensurdece. Não sei se o Gessinger é adepto desse tipo de crítica, então, mesmo que a música pudesse ter previsto o cenário musical posterior, não acredito que pudesse ter algum tipo de intertextualidade nesse sentido. Então podemos falar de qualquer outro tipo de moda colorida que agride o ‘silêncio dos olhos’ como uma possível intenção do autor. Depois temos o ‘Feche os olhos… Outro mundo/Vou morar no interior’: de que interior se trata? Seria um Neo-Fugere Urbem? Uma forma de auto-desterro, de fuga da cidade grande? Um exílio a favor do silêncio? Ou simplesmente o interior de si mesmo? Acredito ser a própria introspecção a resposta, como se a música colocasse o controle de tudo no mundo nas mãos – e na mente – do eu-lírico, bem como na mão de cada um que se sente como ele.

Transbordou a mesa ao lado
Um tsunami arrasador
Fecho os olhos… Outro mundo
Vou morar no interior
E eu tenho fé na força do silêncio.

Esse trecho pode ter sido inspirado no tsunami da indonésia visto a data de composição, ou simplesmente na série de eventos climáticos catastróficos que vêm ocorrendo nos últimos tempos. Mas o termo parece ter sido utilizado apenas como uma metáfora para turbilhão, algazarra. O que me vem a mente quando ouço essa parte é um bar em que acontece um jogo de futebol. O barulho após o gol. A bagunça. Um copo que cai no chão e lava o sapato de uma moça com uma onda de cerveja. Um tsunami. É outro momento de fechar os olhos, concentrar, ter fé.

A fé que me faz
Aceitar o tempo
Muito além dos jornais
E assim mergulhar no escuro
Pular o muro
Pra onda passar

O refrão eu ainda não entendi por inteiro – nem sei se o resto da música, mas vamos lá -, então acredito que as explicações serão meio vagas nesse ponto. Peço até ajuda de algum leitor mais atencioso ou perspicaz nos comentários. Acontece que sempre imagino os refrões como a parte mais intensa da música, a parte mais profunda, sei que nem sempre essa máxima é verdadeira, mas há algo que me faz acreditar que o refrão dessa música é mais do que eu suponho.

A fé supracitada é a mesma fé no silêncio. A fé que busca a verdade além do que é dito, além do que é visto. Além do que é mencionado nos jornais. A fé que faz o eu-lírico fugir do ‘barulho’, do turbilhão de meias-verdades, dessa onda de certeza gritadas, fugir para seu interior até que haja calmaria.

Vi um punk na farmácia atrás de protetor solar
Baile funk no plenário
Ambulância quer passar

Essa contradição dos tempos modernos é aqui materializada num punk que se preocupa com sua pele. Não é uma crítica ao ato em si, mas à contradição que os novos tempos parem. O punk, conhecido pelo jeito largado, pelo não se preocupar, é aqui vestido por algum adolescente que, buscando exteriorizar seus próprios conceitos, e metralhado por modas e ideais, vê no movimento punk uma possibilidade. Essa contradição é inerente à contemporaneidade, poderia dizer até que é inerente a toda história humana, mas agora, hoje, é que é tempo de excessos. Excessos nas calçadas, na cabeça dos jovens, na política. É tempo de excesso de dinheiro na cueca. Excesso de carros nas ruas; e que, de tão cheias, não conseguem abrir espaço para serviços de emergência. A ambulância quer passar. Quantos provavelmente já morreram em ambulâncias presas em engarrafamentos?

Futebol, mesa-redonda, exorcista, camelô
A onda agora é outra onda
Um tsunami arrasador

É o barulho do futebol, das discussões inflamadas de amor e de ódio. Os gritos que exorcizam nosso bom senso, que vendem quinquilharias ou nossas almas. Que onda é essa que a todo momento atordoa o autor? Sabemos que ‘onda’ pode ser gíria relativa à uma opinião que leva outras pessoas – Ir na onda – Ou até mesmo significar ‘causar agitação’ – Fazer onda -, mas aqui sempre nos passa a ideia de turbilhão, de tudo ao mesmo tempo; ouso dizer que seria uma expressão que tenta generalizar, ao invés de se ater a apenas um significado. Ainda assim fica a dúvida.

E eu tenho fé na força do silêncio.

Essa música está para mim como o Discurso do Lótus para os seguidores de Buda.

PoucaVogal

 

lucastamoios

 

6 thoughts on “A Força do Silêncio – Uma análise superficial

  1. Muito bom o seu texto! Eu interpreto alguns trechos de formas diferentes toda vez que ouço, mas o que discuti com você e o que você escreveu é o que mais me convence! Só o próprio Humberto ou o Duca pra nos corrigir fielmente…
    Beijo!

  2. Excelente sua análise! Parabéns por sua linguagem também, a maioria dos blogs só apresentam linguagens pobres, com erros ortográficos. Concordo contigo,”Força do Silêncio” é um caminho para Buda. No refrão, parece que “aceitar o tempo muito além dos jornais” é sentir a vida além da lógica. Viver mais o agora do que propriamente pensar no passado e no futuro. “Mergulhar no escuro” parece-me fazer uma introspecção com fé, para o excesso e o agito passarem. Humberto faz um jogo de sinestesia, principalmente em “Se as cores vão berrando num sol ensurdecedor”. A visão, a percepção da luz e a audição se fundem num sentido só.
    Um abraço! Adorei conhecer teu blog

  3. Parabéns pela análise! Alguns trechos dessa música se parecem muito com “A Hora do Mergulho”, dos Engenheiros do Hawaii. Vale a pena conferir!

  4. Essa música me faz refletir muito e até mesmo por isso vim parar aqui. O refrão me fez pensar muito, acho que hoje em dia os jornais só passam desgraça e o entretenimento apenas futilidades, assim:a fé que me faz aceitar o tempo (muito além também das datas e rotinas, toda segunda ou todo domingo).

    E assim mergulhar no escuro, pular o muro pra onda passar. É sair da zona de conforto do que os outros falam, da mídia e etc… É pular a barreira e deixar a onda do caos passar.

  5. Muito Bom Mesmo Cara gostei bastante de sua análise…

    Sobre o Refrão…

    A Fé que me faz aceitar o Tempo…

    Pra mim ele fala tambem sobre uma esperança que os Jornais não vendem…

    Pois a Fé não depende de fatores visuais e sim de uma certeza interior!

    Espero que eu ajude um pouco tbm! ^.^

  6. Parabéns pela análise! Não é questão de concordar ou não… músicas, poemas, livros, filmes… Tudo isso não tem uma semântica própria. Todas as formas de arte são dependentes da emoção ou dos pensamentos incitados por elas mesmas. Dessa forma, a intenção do autor pode -ou deve- ficar em segundo plano.
    Muito bom ver gente tecendo boas reflexões sobre boas músicas!!! EU TENHO FÉ NA FORÇA DO SILÊNCIO e sinto o paradoxal desejo de que o silêncio grite por mais vezes durante discussões regadas de ignorância e prepotência.

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