O amigo mendigo

Foi só quatro anos depois da nossa despedida que eu tornei a vê-lo. Nossa despedida não. Minha despedida, quando eu me mudei pra capital pra estudar. Foi só agora que voltei a vê-lo.

Ele era um grande amigo de infância, mas o tempo ceifou a amizade que já vinha por fim debilitada.

Vi André deitado no chão, encolhido, enrolado em um cobertor de tecido não-tecido, muito sujo por sinal, mas ainda assim não mais sujo que o próprio André. Seus pés sobravam na parte de baixo do cobertor; um deles tinha uma sandália havaianas que só existia do meio pra frente, o outro estava descalço e com uma enorme ferida entre os dois primeiros dedos. Seu rosto também trazia algumas feridas, aparentemente uma úlcera; e da boca escorria um fio de saliva que terminava em uma pequena poça de vômito, que ele usava como travesseiro. Um cão esquálido, amarrado por um cordão de varal, guardava seu sono atento e trépido.

Eu, que vinha do cartório onde ainda resolvia o problema da herança do meu pai, estava morto de fome. Escolhi uma lanchonete do outro lado da rua onde jazia o indigente. Era uma lanchonete simples mas aparentemente limpa, e tinha uma mesa com vista pra rua, de onde eu poderia perscrutar meu amigo. Ele ainda estava deitado, imóvel; mas o cão tinha se levantado e comia alguma coisa que um senhor de chapéu jogara, é bondade dizer que ele comia, na verdade ele abocanhava o asfalto.

Pedi um suco de laranja e dois pães de queijo. A lembrança que veio foi André me ensinando andar a cavalo na fazenda de seus avós; eu então contava com doze e ele ainda tinha onze, e já montava bem, enquanto eu mal conhecia o animal. Sempre paciente ele então segura um dos meus pés, para que eu alcançasse a sela, e o outro pé já ia no estribo, quando o animal se afasta e eu caio com a barriga em um monte de estrume fresco – quente na verdade -; e na hora eu quero é chorar, nem me lembro porque chorar, mas vê-lo dando risadas me fez rir também. A guerra de estrume que se seguiu foi memorável, tanto pelas histórias que depois contamos na escola quanto pela surra que ambos levamos da avó dele. Deu saudade também da dona Anésia.

O sujeito se mexeu, virou-se agora pro lado da rua, mostrou o lado da face coberto pelo vômito ressecado. Tentei ficar indiferente àquilo, não queria comprometer o sabor da minha refeição (ou da minha manhã). Mas não teve muito jeito, não. Eu não conseguia tirar os olhos de sob aquele ‘estranho-amigo’, e a todo momento eu me lembrava do quanto fôramos companheiros; mas hoje aquele tempo parecia outra vida, uma vida em que eu não me importava muito com as coisas, mas sempre tinha aquele cara pra me fazer prestar atenção ao que realmente importava.

André tinha tantos problemas familiares quanto eu, e talvez tivesse até mais estrutura psicológica que eu para lidar com tais problemas, mas acho que a vida não foi muito justa com ele. Ele tinha uma mãe alcoólatra que mal lembrava seu nome, e um pai carinhoso que aparecia em casa apenas para dormir, já que tinha que trabalhar dobrado para dar conta dos cinco filhos. Mas mesmo assim André foi o único entre seus irmãos que se perdeu. Eu pensava nisso enquanto o via novamente se mexer para ficar com a barriga para cima, a boca e os braços abertos fazendo todos os transeuntes mudarem de calçada para passar por aquela rua.

Ele estava com um canivete em uma mão e a outra escondida nas costas, eu lembrava então de quando tínhamos doze ou treze anos, a mão escondida nas costas trazia a surpresa: um estilingue, que eu sempre quisera mas nunca tive capacidade para confeccionar. O presente foi algo que nunca esqueci; há dois anos, quando tive que mudar de endereço lá na capital, acabei por achar aquela peça e rememorar esses tempos antigos. Também tentei entrar em contato com ele, mas descobri que também mudara de endereço. E ficou por isso mesmo.

Apesar de eu ser maior que ele, ele que era o amigo protetor. E não digo em relação a proteção física, ele sempre fora muito mais esperto que eu. Não foi só uma vez que seu ardil nos tirou de alguma enrascada. Às vezes contava uma mentira como se fosse a mais pura verdade, com tanta naturalidade que eu me perguntava se o evento tinha de fato acontecido ou se eu imaginara. Aos quinze eu comecei a ter com as primeiras meninas, enquanto ele já era entendido do assunto, então ia me dando uns toques, explicando algumas coisas. Fora também um mentor.

Eu tinha terminado meu primeiro pão de queijo e ele se levantava, lentamente olhou para um lado, olhou para o outro. Tentou limpar a sujeira do rosto com as costas da mão, mas o que fez foi espalhar mais. Levantou-se numa parcimônia de movimentos; procurou pelo cachorro alguns segundos, até descobri-lo atrás de si. Amarrou o cordão num poste de proibido estacionar e andou rumo ao primeiro carro do semáforo com a mão estendida num gesto já tão bem entendido por todos os que lhe fechavam o vidro na cara. Ele não esmorecia nem animava com os ganhos e com as negligências, apenas seguia com o olhar vazio e a mão estendida. Trocado ganho, trocado no bolso. Pra falar a verdade acho que o bolso era a única parte de sua vestimenta que não tinha furos.

Depois de observar alguns instantes de sua labuta, terminei o lanche e fui para o caixa. Nunca antes eu demorara tanto para comer. Resolvi comprar alguma coisa para dar pra ele, comprei também um pão de queijo, naquele tempo era ele que gostava. Pedi pra viagem e paguei com o cartão. Quando pus o pé na calçada meu coração acelerou; eu não entendi muito bem porque. Eu ainda via o mesmo bonachão que eu deixara pra trás há quatro anos, só faltava o sorriso. Dei mais alguns passos e a cabeça pareceu ficar maior, e os olhos quererem lacrimejar, as lembranças vinham em turbilhão. Ele, que ia com a mão estendida de carro em carro acabou por parar na minha frente, quase na calçada. André?. A mão estendida se abaixou lentamente e por alguns instantes ele me fitou com mais sagacidade. Apenas alguns instantes. O cheiro de tinner e sujeira que dele desprendia era ininalável, mas mesmo assim o que me chamava a atenção era o seu vagar, sua ausência. Seu olhar parecia passar por através de mim e bater em alguma coisa muito longe lá atrás, até me segurei para não me virar.

A ferida no rosto dele me fitava. Ele ergueu novamente a mão e o maxilar frouxo se movimentou um pouco.Um trocado, dotô? Eu pus a mão no bolso e lhe entreguei uma nota de dez reais juntamente ao lanche. Ele recebeu sem mudar a fisionomia, e se virou, levando embora todo o meu passado.

 

lucastamoios

 

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