Pítia do póstumo

Era fácil como nunca atingir objetivos naquela época. Tudo ao alcance da mão, tudo já fora feito antes. E, apesar disso, essa evolução dos meios gerou uma anomalia que era a própria crise. Foi pela facilidade que os humanos caíram.

Vários filósofos deixaram claro que era a procriação da raça humana o principal objetivo da espécie; e todos nessa época realmente tinham a vontade, não necessariamente da procriação, mas do sexo. De diversas formas, de variados gêneros; masturbações de maneiras antes inimagináveis também excluíram, da vida de muitos, a possibilidade de sexo a dois. “Dizem que Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo”*, e depois disso foi toda a humanidade.

As máquinas traziam não só a facilidade, como também a desgraça. Há quem diga que houve um ano, nesse tempo, que nenhum humano conhecia o enigmático processo de fazer café. Eu não acredito nessas besteiras, há sempre alguém que sabe; mas como o que eu penso não conta, fica aqui o que diziam.

O ser humano desceu degrau por degrau a escada da cadeia evolutiva, tornando-se tão inútil quanto um verme – acredito que até mais que um. A raça era um vírus, como sempre fora, mas agora de maneira mais acentuada. Nos campos cresciam plantações regadas por hormônios que poucos sabiam o que significavam, e tudo era cuidado por máquinas autônomas. Poucos realmente sabiam fazer algum cálculo: eram milhares de engenheiros, formados nas mais ilustres academias, com aquela calculadora científica no bolso. Médicos ganhavam fortunas repetindo tratamentos muitas vezes inúteis que foram criados há dezenas de anos. Mesmo os antes curiosos agora escrutinavam sua própria vida e sua própria mente, num superlativo de zona de conforto.

O esporte se ligava à vaidade pela vertente do corpo perfeito; os alimentos tinham perdido o sabor, pois a facilidade tinha vulgarizado a degustação; juntava-se muito, mas se tinha muito pouco. Isso mesmo. O mundo caiu, e caiu da maneira mais clichê que poderia cair. Os antigos hipsters agora reviram em seus túmulos.

O belo e o vulgar continuam a se confundir. A vida, que sempre fora – e será – bela, tinha sido colocada numa magnífica moldura. De tanto viver, os humanos começaram a acreditar que isso era normal.

*Trecho de um texto atribuído à Veríssimo.

 

lucastamoios

 

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