Pequenos Universos

A senhora de branco era muito gentil com Marcelo, e ele ficava contente só de vê-la. Hoje ganhara um pirulito dela. Seguiu Boa-Dona-Mãe-Catina, por um corredor cheio de outras pessoas de branco, até uma fila. Foi na fila que Boa-Moça-Mãe pegou o azulzinho e o amarelinho. No dia sequer entendeu o que aquilo significaria. Pra falar verdade ele não entendeu nunca, ele tinha um pouco de dificuldade em entender as coisas.

– Marcelo, não corre de um lado pro outro assim que você machuca… Ah, meu deus dai-me paciência!

– Catarina, é o jeito dele, você sabe disso. Tenta ser ao menos compreensiva.

E lá vinha o amarelinho, Marcelo sabia. Ele gostava de quando tio Augusto vinha passar uns dias em casa. Papai-Viajador-Sérgio estava, como dizia mamãe, em um lugar muito bonito hora dessas, e na falta dele tio Augusto era o mais legal.

Era bom quando tio Augusto estava em casa porque era assim que Moça-Boa-Mãe-Tarina esquecia de dar remédio e também ficava mais feliz. Geralmente Marcelo ficava mais livre e podia ir investigar o jardim, podia seguir todos os perninhas-tremidinhas até o buraco deles, e tinha alguns que carregavam coisas e aquilo era o melhor. Mas na maior parte do tempo, o garoto gostava mesmo era de ficar correndo, de um lado pro outro, só pra sentir o vento.

Pena que de uns tempos pra cá estava difícil. Na maioria das vezes não sentia vontade de se levantar; sabia que gostava de correr, mas sentia uma preguiça… Como no dia que nadou muito na casa de piscinas, depois queria muito só comer e dormir. Hoje queria muito comer, e ficava o tempo todo cansado.

– Celo!

– Celo!!! – Respondia de volta mais alto para tio Vermelho-Augusto.

– Celo-Violoncelo!

Marcelo ria muito, gostava de quando o tio fazia piadas com seu nome e imitava sons de flatulência.

– Marcelo-cara-de-caramelo! Prrrrr!

Ria muito e caía de costas no amontoado de almofadas que colocavam no chão só pra esse fim. Boa-Moça-Mãe-Dormideira estava aborrecida novamente, Marcelo tentava entender o porquê, mas nunca conseguia. Ela subiu falando que estava cansada e daí um tempinho tio Augusto-Almofadas subiu também. Era sempre assim. Celo não se importava mais.

Saiu pro quintal. Não tinha muita vontade de correr. Deitou-se embaixo de uma mangueira enorme, com mangas verdes muito grandes. Observava passarinhos. Tinha alguns tão legais, pra falar verdade todos eram, mas gostava mais daquele acinzentado que tomava banho de fonte nesse momento. Criou coragem. Levantou e foi à fonte. O passarinho não voou quando ele chegou perto. Marcelo tirou a blusa e entrou na fonte. O passarinho não se espantou.

Passarinho-Pulador-Rabisco não queria voar porque sabia que Marcelo não conseguiria voar também. Então ele caminhou, na verdade ele camimpululou, até o portão e saiu.

O garoto não entendeu como Passarinho-Rabisco abrira o portão, era isso mesmo? O portão sempre ficava fechado, e Mãe-Preguiça-Catina falava que não era pra ele sair porque… Ele não se lembrava porque. Também sua memória ia falhando e ele ia esquecendo o que ela falava, daí a pouco só tinha a imagem da boa mulher mexendo a boca e nem saindo som. Ria da cena à toa!

Seguiu Rabisco-Pernas-Finas-e-Fortes pela rua. O passarinho ia pulando daqui pra ali, de ali pra acolá, e o menino no encalço. Ele se cansou rápido e sentou. Passarinho-Pernas-Impacientes levantou vôo e foi parar num fio de poste de luz.

– Vai não, Rabisco. Fica, pra festa.

– Não dá Marcelo, tenho que ir!

– Promete que volta quando papai Sérgio, voltar? Quero te apresentar para ele…

– Prometo.

Dito isso voou muito alto, e o garoto tentou acompanhar, mas as casas muito altas com paredes de vidro logo esconderam o pequeno corpo de Rabisco. Então ele caminhou um pouco e se deitou numa escada-cama e cochilou. Quando acordou via que passava senhoras e ficavam olhando pra ele. Uma pegou o telefone e começou a conversar olhando pra Marcelo.

Ele olha para um lado, olha para o outro, e descamba correr. Era dia nublado. Era muito gostoso correr em dia nublado. A brisa, o fresquinho, daí a pouco a chuva. Corria e pulava em um gramado grande, cheio de árvores e bancos; a chuva salpicando a coceira da grama em sua pele. Como Amigo-Rabisco-Pulador gostaria daquele lugar, e gostaria de pular com ele!

Um homem vestido de azul e de boné vem em sua direção e o apanha no colo. Marcelo queria ficar ali. Ele se debate um pouco até que o homem o põe no chão, mas ainda o segura pela mão.

– Achei o garoto.

Ele fala numa caixinha preta grudada na camisa antes de o levar pro carro de luzinhas. Foi um passeio agradável, e era gostoso ouvir aquele chiado e a mulher sempre conversando não se sabia da onde. Pela rua corriam enxurradas que Marcelo sonhava em se banhar, às vezes queria ser um cachorro de rua.

Vívidas, as imagens passavam por ele, num filme de uns cinco minutos até a porta da sua casa. Moça-Cabelos-Revoltos-Mãe ficou conversando com o Senhor-Azul-Rádio-Chiante enquanto tio Augusto o levava pra dentro. E foi ele quem deu um banho em Celo, e era boa aquela sensação confortável que não dá pra explicar. Só quem toma banho de chuva na grama da praça e depois chega em casa pra tomar banho quentinho e comer bolo com chá que sabe.

Não teve bolo. Não teve chá. Mãe-Tina veio e ralhou com ele pelo ocorrido.

– Me deixou preocupada… Meu deus, a vontade que eu tinha é de nem reclamar desaparecimento!

– Fala uma coisa dessas não, Tina! Vou buscar o seu remédio.

– Trás o do Marcelo também. Eu não aguento essa inquietação dele mais não… Que eu faço?

Mãe-Desgrenhada-Catitina pôs um azul claro na boca e deu um azul e um amarelo pro garoto. Aquela balinha tinha gosto bom, queria tomar mais alguma.

– Tenho que ir, Tina, a qualquer hora chega o Sérgio.

– É, vai mesmo, vou colocar o Marcelo pra dormir, e vou ver se durmo também.

Subiram os dois pro quarto depois de se despedirem de tio Augusto-Mãos-Acenantes. Mãe-Catina ia colocar Marcelo no quarto e ia dormir, mas daí ela desceu de novo porque não tinha pegado água pra deixar em seu quarto. Marcelo aproveitou a situação e foi até o quarto de Mãe-Tina-Remédios-Bonitos e pegou algumas balinhas que achou. Era a azul claro, igual ao dela! Pôs no bolso.

– Por que você não nasceu normal, Marcelo? Às vezes desejava nem ter te dado à luz.

Celo não entendeu muito bem o que ela quis dizer com aquilo. Entrou pro quarto e sentou na cama, os pés não paravam de balançar. Ainda não os encostava no chão quando sentado. Ouviu o trinco da porta rodar duas vezes e daí a pouco a porta do quarto da sua mãe bater. Ficou de pé na cama e começou a pular. Ele adorava pular, e sabia que Mãe-Tina-Dormideira não ia achar ruim, ela às vezes dormia um sono bem profundo que Marcelo gostava.

Pulou e caiu de barriga na cama, levantou-se e viu a cartela de azuis-claros caída no colchão. Sentou-se no piso frio de madeira polida – a chuva ainda caía lá fora – e tirou um a um da cartela. Pôs todos no copo com água e mexeu. Depois se lembrou que Mãe-Tina-Catina não tomava assim; Pôs um a um na mão e tomava cada um com um gole de água.

Deitou-se na cama e sentiu uma coisa forte no fundo da sua cabeça. Daí a pouco no estômago, um mal-estar. Moça-Triste-Mamãe-Tina ia brigar que ele fez cocô na roupa de novo; pensou em ir ao banheiro, mas o corpo já ficava muito pesado, muito pesado. O corpo ia ficando inerte e Marcelo ia ficando em paz, já sentia que podia correr novamente, e acreditou que, até que enfim, pudesse ser o passarinho ou o cachorro de rua que ele tanto sonhara. Até que enfim.

Gostaria de agradecer à Miriam Bizarria pela discussão acerca do tema, o que me permitiu escrever tal texto mesmo não sendo conhecedor do assunto. Também à Luiza Paixão, por sua leitura meticulosa e clínica que me deu confiança para postar.

 

lucastamoios

 

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