O mulato

Eu sempre ia ao mesmo bar, à mesma hora. Via mais ou menos as mesmas pessoas e sentava mais ou menos no mesmo lugar. A bebida era sempre a mesma, e acho que foi eu ter pedido uma diferente aquele dia que fez tudo acontecer. Talvez seja paranóia supersticiosa demais pensar nessas coisas, mas é o caos: tudo está ligado.

 

O moleque negro de sempre olhava para as mesmas pernas de sempre, da garçonete de sempre. Não sei se devo dizer garçonete porque era a dona do estabelecimento, mas como ela também servia os clientes, não cometo um erro ao lhe atribuir o ofício. Era de uns quarenta, solteira e filha de um policial reformado. E eu tenho que falar desse último e também lhe atribuir ofício porque faz parte da história. Mas aí que o jovem, de uns dezessete, volta e meia esticava o pescoço, e ela gostava, abaixava o decote e deixava o rapaz entretido, daí fazia freguesia daquele, como fez de mim. Mas meu caso foi outro, foi mais de quinze anos pra trás… E ia o mancebo iniciando no mundo do alcoolismo solitário por aquela mulher.

 

Eu estava terminando a terceira garrafa quando entrou o pai dessa moça. Ele ia lá muitas vezes e eu até conhecia o sujeito. Conhecia também porque tinha medo e sabia que ele não gostava que olhassem sua filha, e talvez porque ela fosse tão respeitosa com o pai que não se tinha casado; o marido ia precisar olhar de quando em vez. Ela não casou. Também não casei eu. Não casou o Ferreira e nem o Paulinho que toca violão na porta do bar toda quinta. Talvez não casasse também aquele jovem mulato. O rapaz era bonito, percebi eu, Amélia mais ainda: virou pra pegar um dinheiro que acidentalmente caiu do balcão. Deixou bem à mostra suas largas ancas conservadas pelo pudor, mas pudor que abandonava de vez em quando pra valorizar as ancas. E o mancebo viu, filmou e tirou foto com os olhos. E o polícia também viu.

 

Eu ainda estava vivo porque eu tinha noção das coisas, eu sabia com o que me metia. Também sabiam o Ferreira e o Paulinho, que não tinha ido hoje tocar violão quebrando uma tradição, que eu quebrara pedindo cerveja ao invés de whisky. Mas o carinha lá não sabia. E o velho deixou ele sem saber, acocorou num canto escuro e ficou lá fumando seu cigarro, olhar injetado e munheca pendendo, braço escorado no joelho. Eu já sabia no que ia dar. Pensando agora me arrependo de não ter tomado providência, mas ninguém admite que quer ver é o circo pegar fogo, uma emoçãozinha nessa vida insossa.

 

O rapaz se chamava João, eu ouvi quando ele falou pra Amélia. Vi também quando ela sorriu, e quando ele chegou no ouvido dela e falou alguma coisa. Vi como ela corou e como o sangue dele espirrou na cara dela quando o velho Amintas deu um tiro na nuca dele. Só não a vi gritar. E me pergunto se há algum tipo de doença que faça com que a pessoa não reaja ou esboce sentimentos, além da resignação, frente a uma situação como aquela. Se houver essa doença, sei que todos que ali estavam sofriam dela, pois ninguém reagiu, ninguém sequer pôs a mão na cabeça e falou: “Caralho!”. Eu sabia que não ia dar nada pra mim, nem pro velho Amintas:

 

“’Cês ‘tão tudo de prova que esse preto safado queria rôbar o boteco de Melinha.”

 

lucastamoios

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *